A CANTORA ELBA RAMALHO. O padre-influenciador Paulo Ricardo, seguidor de Olavo de Carvalho. A senadora Damares Alves. O vice-governador de São Paulo Felício Ramuth. Todos eles fazem parte de uma rede de apoio discreta – mas poderosa – de uma entidade que atua intensamente contra o aborto – inclusive o legal.
A Associação Guadalupe, entidade de católicos leigos ligada à diocese de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, em São Paulo, atua no apoio a gestantes em “situação vulnerável”, oferecendo acolhimento e cursos profissionalizantes, segundo seu site. A atuação da entidade, porém, não se limita ao trabalho assistencial. Sua missão é defender a vida “desde a concepção até a morte natural”.
Para isso, a entidade apoia ações encaminhadas no Judiciário sobre temas relacionados ao aborto e faz lobby pró-vida no Congresso Nacional; também tem uma presença ativa em eventos, audiências públicas e campanhas alinhadas à pauta antiaborto.
Embora a nova e crescente onda conservadora no Brasil seja atribuída principalmente ao campo evangélico, a rede católica da qual faz parte a Associação Guadalupe tem uma presença discreta, mas eficaz, no campo da chamada pauta moral – aborto, gênero, sexualidade e família.
Na área jurídica, a Guadalupe, assim como outras entidades católicas similares, mantém relações estreitas com integrantes da União de Juristas Católicos, também conservadora, que tem representações nos vários estados do Brasil, e com o Movimento Nacional contra o Aborto, em apoio a causas judiciais relacionadas ao tema.
A entidade atua no que chama de “acolhimento” às gestantes vulneráveis. A associação oferece abrigo, suporte médico, psicológico, nutricional e espiritual, e cursos profissionalizantes, entre eles, de cabeleireira, manicure e design de sobrancelhas, como parte da “ressocialização” das gestantes em condições de vulnerabilidade. Com essa apresentação atraente, a Associação Guadalupe conquista a simpatia de fiéis católicos e da comunidade local. Conta também com o apoio institucional da Igreja Católica.
O apoio, no entanto, é acompanhado de uma ênfase: a necessidade de preservação da vida da mãe e do bebê. O objetivo é evitar que as mulheres abortem.
“Quando a gente entra no site dessas associações, parece uma creche, um atendimento infantil juvenil. Mas, na verdade são organizações que convencem as mulheres que têm direito ao aborto legal a não irem atrás do seu direito por motivos religiosos”, explica Tabata Tesser, doutoranda em sociologia pela Universidade de São Paulo e integrante da Rede de Pesquisadoras sobre Aborto pelo Direito de Decidir.
“Elas geram um processo de violência psicológica e de convencimento daquela mulher violentada, a ponto de ser mais fácil para ela aguentar uma violência por nove meses e entregar esse filho para adoção do que fazer de maneira segura, e nas formas que são permitidas no Brasil, o aborto legal. Elas impedem o acesso ao aborto legal”, diz. “Essas entidades promovem desinformação nos casos de direitos sexuais reprodutivos”, critica Tesser.
Associação tentou impedir aborto de menina de 10 anos após estupro
A presidente e principal liderança da Associação Guadalupe é a assistente social Mariângela Cônsoli de Oliveira, uma ativista antiaborto com trajetória no terceiro setor e gestão empresarial.
Mariângela foi uma das participantes de uma comitiva articulada em 2020 pela então ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves – hoje senadora no Distrito Federal pelo Republicanos. O grupo foi a São Mateus, no Espírito Santo, para tentar evitar um aborto legal, autorizado judicialmente, de uma menina de 10 anos que engravidou após estupro.
A ação, que repercutiu em todo o país, tinha o objetivo de retirar a criança de São Mateus e levá-la para um hospital em Jacareí, município vizinho de São José dos Campos e da área abrangida pela mesma diocese. A ideia era que a menina ficasse internada em Jacareí durante a gestação.
A então ministra Damares, que é evangélica, da Igreja Batista da Lagoinha, havia organizado uma equipe do ministério e de aliados políticos, inclusive conservadores católicos, como Mariângela, para intercederem junto ao Conselho Tutelar local e oferecer apoio e infraestrutura a fim de impedir o aborto da menina.
A criança tinha engravidado após ser estuprada pelo tio. O Código Penal brasileiro permite o aborto em casos de estupro – por isso, a interrupção da gravidez era perfeitamente legal. Mas, depois do hospital se recusar a fazer o procedimento, entrou em ação a comitiva antiaborto de Damares, que incluía a Associação Guadalupe. À época, Mariângela confirmou que essa iniciativa foi “institucional” e teria passado por “trâmites legais” e não partido dela.
A criança conseguiu interromper a gestação só depois de viajar 1.600 quilômetros até Pernambuco, no único hospital que aceitou fazer o procedimento.
Do vice-governador de SP a Michele Bolsonaro: a rede política da associação
Quando houve a tentativa de impedir o aborto legal da menina de dez anos no Espírito Santo, em 2020, veio a público a informação que a Associação Guadalupe havia recebido repasses do programa federal Pátria Voluntária, já extinto, coordenado à época por Michelle Bolsonaro, então primeira-dama.
O programa repassou à associação R$ 14,7 mil, um valor considerado modesto. Outros R$ 100 mil foram destinados à associação por meio do programa “Futuras Mães”, do ministério das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos, então sob o comando de Damares.
A Procuradoria-Geral da República solicitou explicações sobre os critérios de seleção das entidades beneficiadas pelos recursos e a compatibilidade entre o repasse e a missão dos programas do governo.
O caso revelou as conexões entre o governo Bolsonaro, o ativismo antiaborto e entidades com forte inserção em disputas morais no espaço público – e evidenciou ainda a visibilidade e o peso político que a Associação Guadalupe já alcançava naquele momento.
Em 2023, a entidade deu um passo adiante ao ser declarada entidade de utilidade pública pelo governo de São Paulo. O responsável pela declaração, oficializada em uma lei estadual, foi o vice-governador Felício Ramuth, do PSD. Com a canetada de Ramuth, a entidade fica isenta de impostos, recebe benefícios fiscais e pode ser parceria de órgãos públicos.
Em 2018, o mesmo Ramuth, então prefeito de São José dos Campos, já havia ajudado a associação: doou um um terreno público para a construção de sua nova sede na cidade.
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A deputada federal Chris Tonietto, do PL do Rio de Janeiro, foi a responsável por uma emenda parlamentar que destinou R$ 100 mil para a Associação Guadalupe. Em 2021, a deputada organizou um seminário na Câmara sobre o projeto de lei conhecido como Estatuto do Nascituro. Também promoveu a entidade em debates no Congresso.
A deputada estadual paulista Leticia Aguiar, do PL, também destinou recursos via emendas parlamentares para a associação. Conseguiu, por exemplo, R$ 50 mil para a construção de um refeitório. Também organizou eventos beneficentes como o “Elas pela Vida”, em 2019, e apresentou projetos na Assembleia Legislativa de São Paulo para conseguir o reconhecimento formal da associação.
Outro apoiador frequente da associação é o padre influenciador Paulo Ricardo, seguidor de Olavo Carvalho. Com 2,2 milhões de seguidores no You Tube, Ricardo apresentava programas na TV Canção Nova, ligada ao movimento carismático. Ele intermediou doações de equipamentos como aparelhos de ultrassonografia para a entidade.
Frei Gilson, frade católico da Ordem dos Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo e um fenômeno atual na internet, com mais de 11,1 milhões de seguidores no Instagram, também é outro grande aliado da Associação Virgem Guadalupe. Em 2024, mobilizou sua base digital em uma campanha para conseguir doações e duplicar a capacidade do abrigo da associação que recebe gestantes.
Frei Gilson é anticomunista ferrenho, condena o aborto e a homossexualidade, e apesar de não se apresentar como um seguidor político de Jair Bolsonaro, representa seus ideais – e tem lotado arenas e estádios pelo país.
A associação ainda tem como madrinha a cantora Elba Ramalho, que teve proximidades com a esquerda no passado mas hoje é uma católica conservadora ligada a grupos como a Renovação Carismática Católica e a Canção Nova. Durante a campanha presidencial de 2022, Elba interrompeu um show em Salvador, na Bahia, por causa de gritos da plateia em favor de Lula e contra o então presidente Jair Bolsonaro. “Isso não é um comício”, reclamou a cantora.
Elba já fez aborto, mas hoje é contrária a essa prática. Tornou-se uma ativista antiborto. Em 2012, ela criticou a então presidente Dilma Rousseff por “amparar grupos feministas” favoráveis à interrupção da gestação. Envolveu-se também em polêmica, durante a pandemia do Covid-19, ao dizer que o coronavírus seria “uma ação de comunistas” para “destruir cristãos”. Depois, pediu desculpas.
Em maio de 2025, revelamos no Intercept que Elba Ramalho era presidente de honra de outra organização antiaborto, a Rede Colaborativa Brasil, que havia pressionado uma menina de 13 anos grávida após estupro para desistir do aborto. Um ano depois, a menina criava o bebê com dificuldades. “A ONG evaporou”, nos disse a mãe da menina estuprada.
Questionada, a assessoria da cantora não retornou. O espaço segue aberto.
‘A alternativa salvadora’
Além da líder Mariângela, a Guadalupe tem como uma de suas cofundadoras a bioquímica Renata Gusson Martins. Ela e o marido, Felipe Nery, fundaram em 2013 o site Biopolítica, um espaço para a divulgação de ideias ultraconservadoras e combate ao aborto e à chamada “ideologia de gênero”. Renata também participa ativamente de eventos e debates públicos em oposição ao aborto.
Outro fundador da Guadalupe é Hermes Rodrigues Nery, historiador especializado em Bioética, diretor da Associação Nacional Pró-Vida Família e do Movimento Brasil sem Aborto. Nery é também membro da Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB.
O diácono Hélio Lemos da Rocha, que atua na Catedral São Dimas, em São José dos Campos, exerce desde 2018 a função de assessor eclesiástico da associação. Ele dá orientação espiritual para as gestantes atendidas pela entidade.
Para a pesquisadora Tabata Tesser, a Associação Guadalupe se diz uma organização de assistência social, mas “reforça estigmas e obstáculos ao acesso ao aborto legal” no país. “A entidade afirma ser uma organização de acolhimento às mulheres vítimas de violência mas, na verdade, promove violência psicológica com mulheres vítimas de violência sexual”, afirma Tesser.
‘Embora enquadrada como assistência social, suas ações se baseiam numa concepção moral e religiosa da maternidade.’
“A Guadalupe usa os termos de acolhimento para promover desinformação e obstáculo ao direito ao aborto legal, inclusive violando a laicidade do estado”, diz a pesquisadora. “Ela desinforma sobre esse direito ao aborto legal que meninas e mulheres podem ter acesso no Brasil. E faz isso com uma linguagem secular [referente ao mundano, o terreno e não o sagrado] mas sendo, no fundo, uma organização religiosa com fins ideológicos muito particulares. É um escudo religioso que se traveste de acolhimento”, aponta Tesser.
A Guadalupe é apresentada como uma solução ‘humanitária’ à legalização do aborto, na avaliação de Rodrigo Toniol, professor de antropologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ, “em um esforço discursivo para deslocar o debate dos direitos para o campo da compaixão e da fé“.
“Embora enquadrada como assistência social, suas ações se baseiam numa concepção moral e religiosa da maternidade, em que a preservação da vida do nascituro se articula a um ideal de regeneração feminina por meio da maternidade”, diz Toniol. “O aborto, nesse contexto, é interpretado como consequência de desamparo e desinformação, e o acolhimento aparece como alternativa salvadora”.
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