ENTREVISTA: Esquerda precisa unir utopia e vida real no duelo eleitoral contra a extrema direita

ENTREVISTA: Esquerda precisa unir utopia e vida real no duelo eleitoral contra a extrema direita

Paolo Demuru, especialista em semiótica, analisa a campanha de Zohran Mamdani e a comunicação dos progressistas para pensar em como disputar com as utopias da extrema direita

ENTREVISTA: Esquerda precisa unir utopia e vida real no duelo eleitoral contra a extrema direita

A ESQUERDA PASSOU ALGUNS ANOS SEM SONHAR, mas está na hora de voltar. Esse é o mote do livro “Políticas do encanto” (Editora Elefante, 2024), escrito pelo semioticista italiano radicado no Brasil Paolo Demuru. “A luta da vez é a luta pela maravilha”, ele escreve, defendendo que os progressistas precisam voltar a valorizar a utopia e inventar novas histórias para reconquistar o espaço perdido para a extrema direita e seu populismo conspiratório.

Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Demuru usa a semiótica, disciplina que estuda a produção e interpretação de sentidos, para analisar a comunicação política e as histórias contadas pela extrema direita. Para falar de teorias da conspiração, ele pega emprestado o termo “fantasias de conspiração” do coletivo de escritores Wu Ming, que defende que “teoria” é uma palavra muito carregada de racionalismo, e não consegue comunicar o componente mágico presente nas conspirações contemporâneas.

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QAnon, Illuminati, marxistas culturais que supostamente querem destruir a cultura ocidental de dentro das universidades e produtoras de cinema e complôs globais de substituição étnica aparecem como segredos fantásticos que não só empolgam quem acredita como desviam sua atenção dos reais problemas do mundo. Assim, em vez de mirar o capitalismo e os problemas que ele causa, os conspiracionistas focam em soluções simples — mas não reais — para as crises.

São essas fantasias de conspiração baseadas em ódio que “entregam a experiência do maravilhoso em um mundo onde a maravilha está em falta”, escreve Demuru em “Políticas do encanto”. Histórias que envolvem planos complexos e mistérios guardados a sete chaves incluem as pessoas em algo maior: o semioticista compara o apelo das conspirações com jogar RPG ou obras de arte participativas, como fanfics e peças de teatro que quebram a divisão entre palco e plateia.

Como disputar o encanto com a extrema direita? Só apresentar os fatos não é suficiente contra histórias que são mentirosas, sim, mas também envolventes e cativantes. É preciso, de acordo com Demuru, focar nos desejos e sonhos das pessoas e trazer novas pautas, novas possibilidades de encanto, para o debate público.

É isso que Zohran Mamdani, o prefeito eleito de Nova York, fez em sua campanha. Num texto publicado na Folha de S.Paulo, Demuru defende que o socialista muçulmano mostrou que é possível reverter a tendência em que o encanto é exclusividade da extrema direita.

O candidato democrata fez isso, de acordo com o semioticista, unindo pautas e reivindicações concretas a valores universais. Uma cidade mais acessível e barata também representa mais liberdade e dignidade para seus cidadãos. 

Foi isso, Demuru defende, que empolgou os nova-iorquinos, e não o uso esperto das redes sociais, com vídeos gravados em diversas línguas para o TikTok e o Instagram. É importante entender as redes sociais, mas é essencial entender o que as pessoas querem e precisam. Não dá para compensar a ausência de propostas com um meme divertido.

No Brasil, pautas que conectam o concreto com o utópico incluem o movimento Vida Além do Trabalho, VAT, que foi fundado pelo vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo, do PSOL, e defende o fim da escala 6×1. 

Em entrevista ao Intercept Brasil, Demuru comentou a importância de retomar a dimensão utópica da política, focando em pautas positivas e propostas novas ao invés de simplesmente posicionar a esquerda contra algo — especialmente nas redes sociais, onde ceder ao ódio e à indignação significa favorecer as big techs.

Intercept Brasil – Qual a importância do encanto para mobilização política?

Paolo Demuru – É fundamental retomar a dimensão do encanto e da utopia na política para projetar cenários com os quais os cidadãos possam se identificar. Eu sempre uso um exemplo das eleições municipais de 2024 em São Paulo, quando o Pablo Marçal estava disputando com o [Ricardo] Nunes e o [Guilherme] Boulos. 

Me lembro de uma matéria que saiu no Metrópoles com o título “Marçal diz que suas propostas são ‘sonhos’ e podem não ser cumpridas”. O tom claramente era de crítica, querendo mostrar o Marçal como um fanfarrão, que prometia coisas absurdas como o prédio de um quilômetro. Mas esse tom é, de certa forma, emblemático do campo progressista e de certos setores intelectuais que não atribuíram e, continuam muitas vezes não atribuindo a justa importância à utopia na política.

Num mundo em que somos atravessados cotidianamente por discursos catastrofistas, principalmente em relação à crise climática, mas não só, as pessoas precisam se encantar, precisam de um cenário de esperança, de um futuro que faça acreditar no mundo em que vivemos. 

‘A gente precisa de uma inversão de rota discursiva, de uma narrativa que não seja tão catastrofista e que reforce a crença neste mundo para engajar e criar pertencimento.’

O governo Lula deu uma guinada nas práticas de comunicação e em algumas pautas mais de esquerda, mas, nos últimos anos, quem estava fazendo isso era a extrema direita, tanto no Brasil quanto mundo afora, apresentando uma utopia própria, uma utopia hiperindividualística e mais neoliberal do que o sistema neoliberal atual. 

O grande exemplo são os bilionários do Vale do Silício, que constroem foguetes para explorar o espaço e buscar uma vida além desse planeta ou bunkers para proteger só eles e suas famílias, ou o discurso da prosperidade pessoal, do bem estar e da cura de si, entre outros.

Quanto às esquerdas, é preciso lembrar que projetar sonhos não significa propor um discurso irracional, descolado da realidade. Elas precisam de um discurso que junta utopia e concretude, como no caso da campanha do [Zohran] Mamdani, que parte de temas concretos (o custo de vida) e promove um desejo de outro futuro enraizado neste mundo aqui, uma utopia coletiva centrada na ideia de bem comum.

Precisamos de novas maneiras de acreditar nesse mundo em que a gente vive antes que ele acabe. Isso fica bem claro no discurso sobre o clima, predominantemente apocalíptico, que fala que o fim está próximo para criar consciência em torno da crise climática. 

Eu acho que a gente precisa de uma inversão de rota discursiva, de uma narrativa que não seja tão catastrofista e que reforce a crença neste mundo para engajar e criar pertencimento. Enquanto os outros vão para Marte, nós precisamos acreditar e fazer as pessoas acreditarem na beleza desse planeta, numa outra utopia de vida em comunidade nesta terra aqui.

Por que a esquerda perdeu a capacidade de encantar?

Pergunta difícil, mas podemos tentar enquadrar o problema, sem a pretensão de dar respostas definitivas, fazendo um pequeno salto ao passado. O começo dos anos 2010 veio logo depois de uma década marcada por crenças utópicas muito fortes, com o movimento altermundialista e as críticas à globalização dos fóruns sociais mundiais, com o slogan de “um outro mundo é possível”. Eram movimentos marcados por discursos de comunidade e de crítica à mídia, produzindo conteúdos para a internet pré-redes sociais, sem algoritmos gerenciando a fruição dessas plataformas.

A isso se seguiram as chamadas “primaveras árabes”, junto do movimento dos indignados na Espanha e o Occupy Wall Street nos Estados Unidos. Esse último tinha um slogan muito eficaz, “somos os 99%”. O que o campo progressista precisa fazer é construir maiorias, como nesse slogan. Isso constrói uma unidade contra o verdadeiro problema: a desigualdade socioeconômica.

A extrema direita conseguiu se apropriar desse discurso antissistema, surfando na onda de protestos. O grande exemplo é 2013: uma explosão de demandas após a crise de 2008 e as conquistas dos primeiros governos Lula, junho de 2013 era uma insurgência popular que dizia “queremos mais”. E tinham demandas populares extremamente legítimas ali. Mas a esquerda não conseguiu entender esse “queremos mais”, veio com um discurso extremamente burocrático, cheio de números de inflação e desemprego diminuindo. Isso é ótimo, mas você não pode comunicar isso de maneira tão fria e objetiva.

A política é movida pelo desejo, sempre. E a extrema direita conseguiu entender que havia espaço ali e deslocou esse discurso de “queremos mais” para o seu campo. Eles aproveitaram uma brecha discursiva e fizeram as pessoas acreditarem que o problema eram os comunistas, os “marxistas culturais”, e não a concentração de riqueza, a injustiça, a precariedade do trabalho e da vida imposta pelo capitalismo neoliberal. Produziram fantasias de conspiração que contavam que o mundo era dominado por seitas de poderosos esquerdistas, desviando o foco dos reais problemas.

No livro, você fala dos núcleos de verdade nas fantasias de conspiração, aqueles pontos verossímeis que são distorcidos pelos conspiracionistas mas servem de base para suas ideias. Mamdani passou a campanha eleitoral focando em custo de vida, um núcleo de verdade que também foi pauta central na reeleição de Trump. Os dois partem do mesmo ponto, mas apresentam respostas radicalmente diferentes. Quais outras pautas os progressistas precisam resgatar dessa apropriação distorcida?

No caso de Trump, os culpados são os democratas progressistas e suas políticas migratórias. Se o custo de vida aumenta, é por causa dos mexicanos, latinos, africanos e asiáticos que vem roubar os trabalhos dos norte-americanos. Mamdani identifica outros culpados, os Elon Musks e Mark Zuckerbergs da vida, quem controla o sistema financeiro neoliberal. 

A resposta que ele apresenta também é diferente. Não é individualista e excludente, mas é uma utopia concreta fundada no comum, no público: congelar os aluguéis, ônibus de graça, creches gratuitas, mercados mais baratos. Não é ir para Marte ou ganhar seu primeiro milhão para se distinguir da massa, é querer viver bem na sua cidade.

No Brasil, um exemplo disso é a luta contra a escala 6×1. Não é um sonho abstrato: é sobre ter mais tempo para ficar com os filhos, a família, os amigos, ler, descansar… a utopia política, nestes tempos, poderia e deveria ser isso: o descanso. É um realismo utópico possível, que acho que é o que precisamos. Cenários mais otimistas e realistas no meio dessa catástrofe toda.

‘A esquerda perdeu um pouco a capacidade de produzir símbolos em que amplas camadas da população possam se reconhecer’.

Custo de vida, trabalho, redução de injustiça social, igualdade, segurança pública, são todas pautas com potencial transversal, de alcançar muitas pessoas. É preciso encontrar novas formas, por exemplo, de falar de segurança pública. Isso não é só uma questão de discurso: não existe comunicação sem ideias e propostas. Precisamos desmontar esse mito de que é só um problema de comunicação.

Tem quem ache que o Mamdani só ganhou porque fez vídeo vertical para o TikTok. Não é porque ele ou o governo Lula fazem vídeos com gatinhos e capivaras que eles vão construir consenso e ganhar eleições. Os vídeos tinham conteúdo, algo para dizer. A capivara, na política, não faz sucesso por si só, ela faz sucesso quando tem algo contundente para dizer. O conteúdo vai junto com a forma.

O algoritmo das redes sociais é uma caixa preta que não dá para abrir. Pensando nas eleições do ano que vem, como a esquerda pode usar as redes sociais e lutar contra o algoritmo, mesmo que o tabuleiro seja desfavorável?

A gente atualmente não sabe como vão ser as redes sociais daqui a dois meses ou menos. Experimentos são feitos diariamente para mudar o algoritmo e a gente não tem acesso a essas informações. É impossível prever o que vai acontecer.

A discussão gira muito em torno da forma: como se apropriar das linguagens dos vídeos, dos memes. A recente virada do governo federal, desde que o Sidônio [Palmeira] assumiu [a Secom], é emblemática nesse sentido. A linguagem é outra. É fundamental se apropriar mais da linguagem das redes, não tem como fugir disso. Mas não é só uma questão de forma. É preciso escolher o que comunicar, o que se quer enquanto governo ou campo político. Redução do imposto de renda, fim da escala 6×1, essas são pautas populares, com potencial transversal, de conectar demandas diversas.

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Outra questão é como juntar pautas que são percebidas como particulares com valores universais. O slogan da manifestação recente contra feminicídio [7 de dezembro de 2025], “mulheres vivas”, é fantástico e poderoso, porque traz para a comunicação a ideia de vida, num cenário marcado por mortes cotidianas. As mulheres nos mostraram como fazer isso, como juntar particular e universal.

Outra coisa que as mulheres também nos mostram é como falar menos por negações e mais afirmativamente. O Mamdani também fez isso: ele não passou toda hora falando do Zuckerberg ou do Trump. Ele se posicionou contra, e é importante definir contra quem você está lutando. Mas muitas vezes o discurso progressista foca no contra. O slogan “mulheres vivas” é positivo, o discurso é afirmativo. “Vida além do trabalho”, o slogan contra a escala 6×1, também é um bom exemplo disso.

Responder de forma afirmativa é ir além de só refutar os argumentos do oponente. Quando você fala disso no livro, escreve que os progressistas são percebidos como chatos e arrogantes quando rebatem conspirações. Como deixar de ser o chato e responder de forma mais astuta e divertida?

A extrema direita contemporânea é muito boa em entender linguagem e discurso, em se apropriar de formas discursivas. A esquerda perdeu um pouco a capacidade de produzir símbolos em que amplas camadas da população possam se reconhecer. 

“Vida” pode ser o grande termo simbólico que o campo progressista pode usar para juntar diversas pautas diferentes, do trabalho à segurança pública. “Mulheres vivas”, “Vida além do trabalho”, vida contra a morte imposta pelo tráfico. É um signo capaz de construir elos entre pautas diversas e entre particular e universal: políticas afirmativas de gênero, trabalho, segurança pública. No fundo, em todas essas áreas, o que importa e que precisa ser defendido em chave progressista é a vida. Isso é falar de uma maneira mais utópica, não sei se divertida, mas utópica.

Sobre o humor e um jeito mais divertido de se posicionar, um exemplo bem específico é um vídeo em que o Mamdani está subindo numa bicicleta, alguém grita “comunista!” e ele responde “se diz ciclista”. Ao invés de responder com ódio ou falar negativamente, ele consegue, ao mesmo tempo que ironiza e ridiculariza quem gritou “comunista”, projetar um cenário futuro positivo, com a pauta positiva de mobilidade pública. É isso que o [linguista George] Lakoff falava: você precisa trazer o adversário para dentro da sua narrativa.

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