Os dois proprietários da comunidade terapêutica Esdras foram condenados à mesma pena de 31 anos, sete meses e cinco dias de prisão por sequestro e cárcere privado, em sentença dada pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, no último dia 4 de março.
Talita Assunção e Marcos Moglia estavam presos desde fevereiro de 2023, quando uma força-tarefa coordenada pelo Ministério Público estadual fechou o centro, localizado na cidade de Cajamar, a 29 quilômetro da capital.
Além de Moglia e Assunção, Lidiane Katia de Carvalho, coordenadora geral do centro Esdras, também foi condenada na mesma ação. Sua pena é de 28 anos, dois meses e 10 dias. Os réus também deverão indenizar seis vítimas por danos morais, no valor de R$ 20 mil, cada uma.
Todas as condenações foram em primeira instância, ou seja, ainda cabe recurso.
O Intercept Brasil contou os horrores vivenciados dentro do centro Esdras em duas reportagens da série especial Máquina de Loucos.
Na primeira, as internas relataram sofrer agressão, tortura física e psicológica, ser submetidas a medicação sem prescrição médica, obrigadas a praticarem trabalhos forçados, sofrer intolerância religiosa, além de vigilância constante para não deixarem o espaço.
Na segunda publicação, narramos o sofrimento de dona Marli Alves, que internou a filha Milena Eduarda de Paula Leocádio para reabilitá-la do vício em álcool e cocaína. A filha, no entanto, saiu de lá morta, na antevéspera da chegada do ano de 2022.
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O laudo do Instituto Médico Legal apontou que o corpo de Milena tinha diversas marcas de espancamento e que sua morte foi em decorrência de “insuficiência respiratória e intoxicação medicamentosa”.
Em seu sangue, havia a presença de oito substâncias diferentes – entre antipsicóticos, benzodiazepínicos e um antialérgico.
Uma ex-funcionária do centro entrou em contato com dona Marli para contar que a paciente havia sofrido ataques dentro do Esdras. Milena teria sido amarrada, agredida e sufocada com uma meia na boca para abafar os gritos.
A delegacia responsável pelo caso levou 12 meses para abrir o inquérito e investigar a morte de Milena – e até hoje não indiciou os suspeitos. Esse caso, portanto, não integra o processo em que Talita, Marcos e Lidiane foram condenados neste mês.
Na denúncia do MPSP que respaldou a condenação, Talita e Marcos são apontados como mentores de uma “organização criminosa”, com o intuito de obter “vantagem econômica”.
Os funcionários do centro, “orientados pelos donos”, atuavam de forma a manter o “terror interno” e a “lucratividade do negócio”, ainda de acordo com o MPSP.
O centro era um espaço evangélico, que aceitava apenas pacientes do sexo feminino e prometia reabilitação para usuárias de drogas. Para uma internação de seis meses, o valor girava em torno de R$ 10 mil – itens de higiene, cigarro e alimentação eram cobrados por fora.
As pacientes ouvidas pelo Intercept contaram que os cultos evangélicos eram obrigatórios e que, próximo às eleições, os pastores chegaram a pedir apoio explícito a Jair Bolsonaro, então presidente da República, em campanha para renovar o mandato.
Outro lado
Procuramos os representantes dos três condenados em primeira instância para ouvir o posicionamento deles. Por telefone, falamos com o advogado Luiz Gustavo Silva Pinto, que representa Talita Assunção.
Ele disse não entender como tivemos acesso à decisão – uma vez que o processo está sob segredo de justiça – e informou que seu sócio, Tiago Miranda Cunha, retornaria por WhatsApp – o que não aconteceu até o fechamento da reportagem.
Jairo Coneglian, que representou Marcos Moglia, disse que foi dispensado pelo cliente e que nos passaria o contato do novo advogado. Ele também informou que Moglia pretende recorrer da pena.
Não conseguimos localizar o advogado de Lidiane Katia de Carvalho para ouvir sua versão.
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