BALTIMORE, MD - APRIL 27:  A woman faces down a line of Baltimore Police officers in riot gear during violent protests following the funeral of Freddie Gray April 27, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, who was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Homes housing project on Baltimore's west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody.  (Photo by Chip Somodevilla/Getty Images)

Três mulheres, três países, o mesmo crime: a luta feminina contra a violência do Estado

No Dia Internacional das Mulheres, elas contam suas histórias de busca por justiça.

BALTIMORE, MD - APRIL 27:  A woman faces down a line of Baltimore Police officers in riot gear during violent protests following the funeral of Freddie Gray April 27, 2015 in Baltimore, Maryland. Gray, 25, who was arrested for possessing a switch blade knife April 12 outside the Gilmor Homes housing project on Baltimore's west side. According to his attorney, Gray died a week later in the hospital from a severe spinal cord injury he received while in police custody.  (Photo by Chip Somodevilla/Getty Images)

Mulheres fortes, posicionadas na linha de frente de grupos e movimentos sociais em todo o mundo, seja por bandeiras abertamente feministas ou não. São mães, filhas, irmãs, amigas que se levantam contra as injustiças que tiraram a vida de alguém que elas amavam.

The Intercept Brasil conversou com três mulheres ativistas do Brasil, da Jamaica e dos Estados Unidos, em fevereiro durante um encontro da Anistia Internacional, no Rio de Janeiro. Nos três casos, seus familiares foram vítimas do Estado. A forma como foram mortos e o fracasso da Justiça em responsabilizar os agentes do Estado pelos assassinatos têm um impacto profundo e duradouro sobre essas mulheres, que se tornaram forças-motoras de luta social.

“Naquele dia, tinha 23 policiais militares que estavam em fase de formatura, eles precisavam de diploma para entrar na Polícia Militar, fazer o ‘batismo’. Aquele era o último dia deles. E eles resolveram naquele dia fazer o holocausto do meu filho e o meu também. Eles abordaram Davi, ele estava conversando com uma pessoa, foi comprar alguma coisa às 7h da manhã. A testemunha disse assim: Não, ele mora aqui, é meu vizinho, tem nada a ver com isso não. E ele [o policial] fez: Bom, já que não tem ninguém, vai ele mesmo.”

O caso de Davi Fiúza — jovem de 16 anos sequestrado e morto por agentes da Polícia Militar da Bahia em 2014 — corre até hoje no Ministério Público, que segue prorrogando o prazo de entrega do inquérito desde 2016. Foram acusados 23 policiais, então formandos.

Sua história reflete a de tantos outros jovens, negros, moradores de periferias: o perfil apontado pela Anistia Internacional em seu relatório anual como os mais “desproporcionalmente afetados pela violência por parte de policiais”. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, a cada 23 minutos, um jovem negro é morto no Brasil.

Índices similares se repetem em outros países, onde histórias parecidas com a de Fiuza não cansam de se repetir. Nos Estados Unidos, um jovem negro de 15 a 34 anos corre um risco 9 vezes maior de ser morto pelas mãos de agentes policiais do que os demais. Na Jamaica, entre 2005 e 2013, mais de 200 pessoas foram mortas por policiais a cada ano. No entanto, desde 2000, apenas dois policiais foram julgados culpados por assassinato no país.

“Formamos essa coalizão, e é incrível, porque te dá força, te motiva a continuar. Eu, pessoalmente, sou uma líder. É simplesmente automático, foi intuitivo para mim começar a liderar essas mulheres, a ser a fonte da força delas. Eu sempre fui a fonte de força na minha família, agora sou uma fonte para elas. Porque muitas delas estão destruídas, muitas delas não têm o apoio de suas famílias. Então nós somos a família. Nós nos vemos como irmãs.”

A fala de Marion Gray-Hopkins retrata uma dificuldade que ela mesma observa entre outras mulheres: a dificuldade e a falta de apoio familiar na decisão de militar por uma causa.

A pesquisa “Feminismo e igualdade de gênero pelo mundo” perguntou, entre outras coisas, se as mulheres teriam medo de defender a igualdade de direitos por algo que pudesse acontecer com elas em represália ao ativismo. Foram entrevistadas 17.551 pessoas de 24 países, entre elas 8.822 mulheres. Das brasileiras entrevistadas, 41% disseram ter medo de defender os próprios direitos – a média mundial é de 26%. Dos 24 países participantes, o Brasil ficou em terceiro lugar neste quesito, perdendo apenas para Índia e Turquia.

São dados como este que confirmam a importância de grupos como os formados pelas três entrevistadas que figuram nesta matéria. É da troca de experiências e do apoio em rede, presentes nos relatos das três, que surge a força para buscar justiça.

“Quando você abraça uma mãe que perdeu um filho, tem quase uma transferência de emoções, de força. Não é apenas um abraço, é algo que transcende até a barreira linguística pela qual passei no Brasil. Nós conversamos sem precisar falar muito. Aquele olhar; aquele punho que está cerrado; a maneira como elas te encaram; a maneira como elas te garantem, na forma como acariciam a sua mão, para dizer ‘eu te entendo’. Estamos nessa juntas, mais fortes juntas.”

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